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E o Bulldog mordeu…

O Bullblog tem recebido uma série de postagens de proprietários em dificuldades comportamentais com seus amados Bulldogs. Na grande maioria delas, o problema diz especificamente com agressividade voltada contra o dono, inclusive de filhotes.

Assim, resolvi falar um pouco sobre o assunto em razão da sua importância e do pouco material existente, leia-se Bulldog e agressividade.

Inicialmente é necessário falar sobre a origem da raça e a função para a qual ela foi selecionada. Descendente dos antigos molossos, o Bulldog tem a sua gênese calcada em batalhas e lutas corporais. Eis a sua função primeira, lutar e defender!

Em outras palavras, o Bulldog era uma máquina de guerra, com itens, como cabeça, corpo, mordedura, tronco, pele, temperamento e resistência à dor, cuidadosamente selecionados durante centenas de anos para que fosse, primeiramente, um soldado e, posteriormente, como a raça acabou sendo consagrada, um gladiador nos esportes de época – em especial as lutas contra touros, ursos e até mesmo em rinhas de cães.

Muito embora a figura do Bulldog atual apresente um distanciamento físico do seu antepassado de arena, muitos dos traços primitivos estão fortemente presentes na versão moderna da raça e formam a sua essência, ou seja, são características pela quais a raça é identificada. É o caso da cabeça braquicefálica, da mandíbula prognata, do topline (linha de dorso com posterior mais alto) e do formato do corpo (mais pesado e forte na frente em comparação com o posterior).

Penso, logo mordo!

Centro de Educação Canina Graciosa Dog Resort

Muitas pessoas possuem uma concepção incompleta e muitas vezes equivocada do que realmente significa uma mordida no mundo canino.

Vamos começar pela infância/juventude dos cães e a vida entre irmãos de uma ninhada.

Filhotes brincam, interagem e se comunicam utilizando o corpo e principalmente a boca.

Nesta fase do desenvolvimento, os filhotes aprendem a modular a intensidade de suas abocanhadas pela reação do irmão.

Se o filhote extrapola em seu jogo e morde forte o irmão, automaticamente recebe como resposta um ganido e a imediata interrupção da brincadeira.

Quando isso acontece, temos também uma reação do ofensor que esboça uma expressão desconcertada de quem pisou na bola e acabou descumprindo as “regras do jogo”.

Também nessa idade se percebem os primeiros sinais dos diferentes perfis comportamentais de cada um dos filhotes e as brincadeiras constituem uma oportunidade para os filhotes testarem suas pretensas posições hierárquicas na ninhada e posteriormente na matilha.

Assim, como todo ser vivo dotado de inteligência, o filhote, independente da raça, irá, enquanto cresce e desenvolve-se, interagir com seu dono da mesma forma com que faria junto aos irmãos de ninhada, sua mãe e/ou cães mais velhos.

Note-se que no caso específico do Bulldog, temos um cão outrora de arena, ou seja, uma raça cuja função originária e primitiva era morder e, queira ou não, esse viés, essa inclinação, está presente também no DNA dos pacatos e companheiros Bulldogs modernos.

Em outras palavras, o uso da boca em todas as fases do Bulldog é mais pronunciado do que em outras raças.

E é justamente por isso que o proprietário precisa compreender o significado da mordida do filhote e saber interagir corretamente para que problemas futuros sejam evitados.

Muitas das reações do proprietário às mordidas agressivas do filhote são totalmente equivocadas e acabam por reforçar/recompensar a conduta indesejada.

Jamais provoque o filhote com jogos violentos usando a mão ou outro objeto como oponente.

Muitas mordidas são, também, formas que o filhote/cão adolescente encontra de chamar a atenção ou extravasar suas frustrações.

Por isso, qualquer tipo de atenção dada ao filhote, positiva ou negativa, após a indesejada mordida, servirá como reforço ao ato de morder.

Assim sendo, nada de comentários do tipo “ai que bonitinho todo brabinho” ou “que feio mordendo a mamãe”…

Aqui se abre um parêntese para registrar que filhotes não são crianças e, por isso, não podemos jamais humanizar essa relação. Buscar conhecer e entender a ótica canina é fundamental para que o convívio seja de companheirismo, respeito e amizade.

Lembre-se que você não conseguirá educar um filhote dando-lhe apenas carinho. É preciso impor regras, limites e restrições.

Em 99% dos casos nos quais o proprietário têm alguma reclamação comportamental do seu cão, tal situação foi causada por erros cometidos pelo próprio dono do animal. Muito mais do que pensar em chamar um adestrador, são os donos que precisam ser “adestrados”, pois desconhecem o cão e o seu papel na vida dele.

O mesmo se pode dizer de todo e qualquer castigo físico como bater com jornal, sacudir pelo cangote, segurar o focinho com a boca fechada ou gritar com o cão.

A melhor reação à mordida forte é interromper a interação com o filhote como aconteceria se  a brincadeira fosse entre dois cães.

Outra alternativa é desviar a atenção e a boca do filhote para objetos e brinquedos apropriados, que possam ser roídos e mordidos à vontade.

Gastar a energia do filhote com atividade física e brincadeiras apropriadas e que não envolvam fortes mordidas é também uma excelente opção, pois energia acumulada e falta de atenção dos donos podem gerar situações em que o ato de morder nada mais é do que um pedido de atenção ou uma válvula de escape.

Por isso, caro leitor, não espere que aquele filhote levado para casa seja como uma máquina que já vem programada para funcionar sempre da mesma maneira. Procure ler, busque informar-se sobre tudo o que cerca o universo e a ótica do cão.

giba-criadorcolaborador

Gilberto Medeiros

Colaborador do Bullblog e Criador de Bulldogs desde 2003

Canil Reserva do Rei

E o Bulldog mordeu…

O Bullblog tem recebido uma série de postagens de proprietários em dificuldades comportamentais com seus amados Bulldogs. Na grande maioria delas, o problema diz especificamente com agressividade voltada contra o dono, inclusive de filhotes.

Assim, resolvi falar um pouco sobre o assunto em razão da sua importância e do pouco material existente, leia-se Bulldog e agressividade.

Inicialmente é necessário falar sobre a origem da raça e a função para a qual ela foi selecionada. Descendente dos antigos molossos, o Bulldog tem a sua gênese calcada em batalhas e lutas corporais. Eis a sua função primeira, lutar e defender!

Em outras palavras, o Bulldog era uma máquina de guerra, com itens, como cabeça, corpo, mordedura, tronco, pele, temperamento e resistência à dor, cuidadosamente selecionados durante centenas de anos para que fosse, primeiramente, um soldado e, posteriormente, como a raça acabou sendo consagrada, um gladiador nos esportes de época – em especial as lutas contra touros, ursos e até mesmo em rinhas de cães.

Muito embora a figura do Bulldog atual apresente um distanciamento físico do seu antepassado de arena, muitos dos traços primitivos estão fortemente presentes na versão moderna da raça e formam a sua essência, ou seja, são características pela quais a raça é identificada. É o caso da cabeça braquicefálica, da mandíbula prognata, do topline (linha de dorso com posterior mais alto) e do formato do corpo (mais pesado e forte na frente em comparação com o posterior).

Do ponto de vista comportamental, podemos dizer que há também uma grande diferença entre aquele cão de luta do passado e o Bulldog atual, hoje um cão essencialmente de companhia e perfeitamente adaptado à vida moderna e aos grandes centros urbanos.

Aliás, cabe o registro de que a raça só conseguiu chegar aos dias atuais, e ainda gozando de grande popularidade, graças ao trabalho de obstinados criadores que, mesmo com a proibição de tais esportes violentos (1835), mantiveram seus Bulldogs e, por meio de cruzamentos seletivos, conseguiram tirar o viés agressivo da raça.

É claro que nos dias de hoje, com todo o tratamento e regalias que um Bulldog moderno faz jus como membro da família, fica muito mais fácil ser aquele cão bonachão e pacato que conhecemos do que o ancestral raivoso e sempre pronto para atacar.

Não é difícil de imaginar o tratamento dispensado às “estrelas” do Bull baitings rings no Século XVIII…

Sobre a importância do “esporte” na época e a herança deixada por ele, envolvendo principalmente a briga contra touros em suas respectivas arenas, reproduzimos trecho da matéria extraída do jornal Londrino “Globe”, publicada em julho de 1905, sendo que os fatos inerentes ao texto estão relacionados há 95 anos (aquela época):

No Mercado Municipal de Preston ainda se pode observar uma larga pedra a qual estava antigamente afixada no ring no qual o touro era amarrado, mas o próprio anel (ring) desapareceu. “Bull ring” este é o termo que era aplicado para a designar o anel que era afixado numa pedra ou numa pesada estaca de madeira que ficava ao centro da arena. E neste anel o touro era amarrado. Em Horsham o anel de ferro no qual o touro ficava preso ainda pode ser visto no local onde eram firmadas as lutas, num pequeno anexo, ao lado de Carfax – a forma do espaço central diverge das ruas principais da cidade. Disso tem sido dito que o seu ultimo uso foi no ano de 1814. O nome de “Bull ring” como doação da cena dos Bullbaitings é ainda preservado em muitas cidades inglesas. Em Birmingham, por exemplo, a rua mais importante e movimentada chama-se “Bull Ring” – um nome de muita significância que permanece desde os tempos mais remotos, mas que descreve o local no qual muitos vestígios e sinais do antigo esporte ao longo tempo desapareceu.

Prossegue o histórico texto, agora falando da presença dos Bulldogs nestes rings:

“Na Southwark High Street, antigamente, nos tempos da dinastia Tudor, existia no local um Bull Ring, a qual desapareceu a cerca do ano 1560; a qual foi substituída pelos famosos Paris Gardens (Jardins de Paris), onde ursos foram os especiais e favoritos propósitos para lutar contra bulldogs. O Bull Ring – a arena de esportes – era circular, uma construção muito forte e fechada; e Mr. Fairbairn Ordish, em sua redação sobre “O primeiro Teatro de Londres” mostrou bem isso que a influência da “Tal estrutura redonda formato das antigas casas de esportes era “considerável” embora secundário, para o “tradicional ring” interagir na evolução dramática, em conexão com outras formas de “jogos” esta era mais apropriada e quase se aliando para o drama. Os antigos tempos do cruel esporte eram diretamente encorajados por algumas autoridades urbanas por razões que o Bullbaiting contribuía para a oferta da carne bovina. Chesterfield em Derbyshire, existia uma lei municipal que ordenava que todo açougueiro que matasse um touro no matadouro teria previamente que “iscar”, ou seja, colocar o animal para combater no Bull ring da praça do Mercado ou então pagar uma multa.” (Grifou-se).

Muito embora os Bull rings façam parte do passado e hoje o Bulldog não tenha que defender sequer o seu prato de ração, não podemos esquecer que aquela máquina de guerra ainda possui as armas com as quais antigamente defendeu territórios e divertiu os povos nos esportes sangrentos!

Também não podemos esquecer que alguns contornos comportamentais outrora fundamentais ao velho gladiador, ainda hoje estão visíveis, por exemplo, no Bulldog Horácio que passa as tardes roncando estirado no tapete da sala…

Quem tem um Bulldog sabe, não espere um cão servil e que faça tudo para agradar seu dono. São cabeçudos e se permitem fazer algumas vontades de seus donos sempre que lhes for conveniente ou, principalmente, se ao final o pagamento for algo comestível…

Em outras palavras, o Bulldog moderno é um cão determinado para muitas coisas e que suporta como poucos a dor física. Tais características, certamente, faziam parte dos antigos freqüentadores dos Bull baitings.

Minha intenção com essa analogia é apenas contextualizar o Bulldog para que as pessoas tenham uma concepção mais completa e abrangente sobre a raça e possam com ela relacionar-se tendo em mente sua história e evolução. Nada mais que isso.

Além desse aspecto histórico, que pode, em muitas casos, ser o pano de fundo de alguma reação atávica de agressividade, temos que lembrar que, muito embora sejamos atraídos principalmente pela estampa do Bulldog, o bom criador deve primar pela seleção de cães com temperamentos condizentes com a atualidade da raça e com aquilo que esperamos de um cão essencialmente de companhia.

Esse é um aspecto muito importante e também muitas vezes desprezado por alguns criadores e que, vez por outra, mostra seus efeitos em filhotes com problemas comportamentais e até mesmo em cães adultos que participam de exposições da raça, muitos deles sumariamente desclassificados ao tentarem avançar sobre o árbitro.

Somado a tudo isso está o despreparo dos novos proprietários para lidar com esse novo membro da família (indiscutivelmente o principal fator a desencadear problemas comportamentais), que, muito embora seja amado e tratado como um ser humano, é na verdade um animal, um cão, que precisa ser entendido e tratado como tal. E para que isso aconteça é necessário que seu dono reúna o mínimo de informações sobre ele. Mas isso é assunto para o próximo post.


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Gilberto Medeiros

Colaborador do Bullblog e Criador de Bulldogs desde 2003

Canil Reserva do Rei