Demodex, parece mas não é…

O tema envolvendo o ácaro demodex canis na raça Bulldog é, na maioria das vezes, mal interpretado, ocasionando diagnósticos equivocados, dores de cabeça e atrito entre criadores e proprietários.

Antes de qualquer coisa, é importante registrar que o presente artigo é baseado principalmente na minha experiência como criador e se refere especificamente à ocorrência do demodex canis na raça Bulldog.
De início, vale registrar que a sarna demodécica apresenta duas formas distintas, a juvenil localizada e a adulta generalizada.
A maioria dos casos de diagnóstico errôneo e precipitado refere-se à forma juvenil e localizada. Esse será o objeto do presente texto.
Um belo dia, o proprietário de um jovem bulldog percebe algumas pequenas falhas redondas na pelagem do seu cão. Ao levá-lo no veterinário, recebe a sentença: “seu cão está com SARNA DEMODÉCICA e precisa ser CASTRADO!” Automaticamente, o proprietário coloca-se na posição de vítima de um criador irresponsável e mau-caráter!
O resultado desse diagnóstico causará stress ao criador, ao proprietário e, principalmente, ao próprio cão, o qual passará a ser visto por seu dono como sinônimo de tristeza e preocupação…
O aspecto primordial da sarna juvenil localizada é possuir uma relação íntima e direta com o sistema imunológico do cão que ainda é jovem, ou seja, menos de 12 meses. Nessa fase da vida, a imunidade do cão estará em franca construção e, portanto, apresentará brechas que o tornarão suscetível a este e outros problemas de saúde próprios da idade (otites, resfriados, pneumonias, giárdia, doenças virais oportunistas, entre outros).
Também caracterizadora da forma juvenil localizada, estão o formato das lesões e sua extensão, sendo comum o aparecimento de uma a cinco falhas redondas no pêlo, geralmente situadas nas regiões da cabeça, pescoço e membros anteriores.
Importante registrar que o demodex canis é um habitante natural da pele de todos os cães do planeta que apresentem sinais clínicos da doença ou não! Então, num exame de raspado cutâneo, em qualquer cão (seja um cão de rua, seja um cão de madame ou cão de raça, não importando a raça), lá estará presente o ácaro, fazendo parte da microbiota, da fauna cutânea, ao lado de outros microorganismos!
Morador da pele, o demodex é extremamente oportunista, aproveitando-se de inúmeras situações para reproduzir-se, consumir o pêlo e com isso causar falhas.
A fase jovem do bulldog e as inúmeras oscilações que o seu sistema imunológico poderá sofrer até a sua completa formação são, da mesma forma, super aproveitadas pelo demodex!
Entre os cães jovens, vê-se uma maior incidência em fêmeas justamente no período que antecede o primeiro cio, quando o organismo sofre uma descarga hormonal muito grande. Nessa ocasião, oportunamente o ácaro poderá se manifestar através de pequenas e localizadas lesões na pele.
O mesmo se pode dizer dos machos que passam pela fase de puberdade. Mesmo sem ter um evento marcante como o cio das fêmeas, no macho há também uma “explosão hormonal”, pois, também nesta idade (de 9 a 12 meses), o cão torna-se apto a reproduzir (maturidade sexual).
De todas as possíveis causas, a imunodepressão causada pelo manejo equivocado é a grande responsável pelo surgimento dos sinais clínicos da sarna demodécica juvenil e localizada na raça Bulldog.
O exemplo clássico é o filhote que sai do canil onde tem uma qualidade de vida ideal (alimenta-se corretamente, dorme, toma sol, faz atividade física, tem a companhia dos irmãos de ninhada e atenção do criador) e vai para sua nova casa. Lá ele passa o dia só, trancado no apartamento, esperando pela chegada de seus donos ao final do dia.
Esse é um fato infelizmente corriqueiro, pois muitos compram o filhote por impulso, sem pesar a responsabilidade e o trabalho demandado. Também nesses casos há a indiscutível irresponsabilidade do “criador” que, ao vender esse filhote e para não atrapalhar o negócio, pinta um quadro extremamente colorido e surreal, onde o filhote é quase auto-suficiente, que não dará qualquer tipo de trabalho, ao contrário, só alegrias ao feliz proprietário. O Bulldog é uma raça de companhia e que gosta e precisa do contato humano para viver feliz e sem stress.
Despreparo, falta de tempo e espaço adequado são as principais dificuldades enfrentadas por quem está pensando em ter um cão de companhia. Ter um pet nestas condições será sempre sinônimo de problemas, que podem se manifestar tanto na via comportamental quanto por meio de inúmeras enfermidades, como é o caso da sarna demodécica juvenil localizada!
Entre outras causas de imunossupressão que podem acarretar um quadro de demodécica estão: desnutrição, traumatismos, ansiedade de separação, fadiga crônica, estro, parto, lactação, parasitismo, crescimento rápido, vacinações, temperaturas ambientais adversas e doenças debilitantes.
Também considerado manejo equivocado, estão os banhos freqüentes a que muitos cães são submetidos… Muitos vão à pet shop uma vez por semana para banho, o que é um verdadeiro absurdo e um atentado à saúde da pele de qualquer cão!
Cumpre lembrar que não estamos diante de uma raça rústica. Ao contrário, o Bulldog é exigente do ponto de vista nutricional e de cuidados!
A forma juvenil e localizada da doença é considerada benigna e, na grande maioria das vezes, não requer tratamento (auto-limitante), havendo cura espontânea, já que a resposta imunológica do cão será capaz de controlar naturalmente a população de ácaros. Isso ocorrerá num período de 2 a 3 meses.
Em 10% dos casos a sarna demodécica juvenil localizada poderá evoluir para a forma generalizada, cujo enfoque, por óbvio, será outro e totalmente diverso.
No caso da forma adulta e generalizada, estaremos sim diante de uma doença grave, com recidiva e de difícil e longo tratamento e que, invariavelmente, irá acompanhar o cão por toda a sua vida. Somente na forma generalizada da doença a castração deve ser indicada como forma de evitar oscilações hormonais e possível reaparecimento dos sintomas clínicos da doença.
Por isso, em se tratando de um cão jovem, com lesões localizadas, jamais se pode adotar o mesmo diagnóstico e protocolo que se teria diante da verdadeira e temida sarna demodécica!
Nessa hora são necessários prudência e bom senso, rever o manejo do cão, questionar-se sobre a qualidade de vida ofertada e aguardar pela resposta imunológica antes de qualquer decisão precipitada, pois aquilo que parece muitas vezes não é!
Para concluir, devemos dizer que muitos cães, incluindo Bulldogs, vêm sendo diagnosticados erroneamente com a sarna demodécica e a partir daí submetidos a tratamentos desnecessários e onerosos. Como bem diz o veterinário Dr. Ronaldo Lucas, uma das maiores autoridades em dermatologia canina no País: “Não é porque você tomou um porre na vida, que pode ser rotulado de alcoólatra.”
Gilberto Medeiros – www.reservadorei.com.br

3 Responses to Demodex, parece mas não é…

  1. Beatriz Coelho disse:

    Gilberto,

    Fantastisco esclarecimento. Principalmente para quem tem o seu primeiro Bulldog.

    Meu Bulldog, hj com quase 5 anos, é um cao extremamente saudavel e forte. Graças a Deus!!!!

    Teve algumas das tipicas “doenças” de um Bull filhote.
    Me assustei, logico.

    Sempre tive caes. Minha babá foi um Boxer (eu tinha 2 meses de vid, qdo ele veio me fazer compania).
    Passei por diferentes raças durante toda minha vida.
    Pela primeira vez, tenho um Bulldog.
    Bambam “aconteceu” na minha vida..
    Qdo o comprei, nao me pre-informei como deveria. Me apaixonei, e
    fui as compras para preparar a casa para recebe-lo, no mesmo dia que o conheci.
    Fui ler sobre a raça, já com o fofo e agitadinho Bambam, em casa.

    Mesmo conhecendo varios, e bons veterinarios aqui em BH, troquei algumas vezes de medico.
    O que percebo é que existem 2 “problemas” em relaçao ao atendimento medico a essa raça:
    Alguns veterinarios REALMENTE nao entendem de Bulls, e dao diagnosticos errados, como por exemplo o de displasia em filhotes.
    Já outros, concluem que o proprietario de um Bulldog, tem dinheiro para gastar, e conseguem que paguemos tratamentos e medicamentos caros, apelando para o vinvulo emocional que temos com nossos caezinhos.,

    Hj, graças a experiencias de criadores que, como vc, divulgam sua vivencia na internet, e tbm a alguns veterinarios serios e comprometidos com a profissao, meu Bulldoguinho é um adulto feliz, saudavel, lindoooo.
    Vcs me ajudaram, e ainda ajudam muiiitoooo.

    Obrigado!

    Beatriz e Bambam Porpetone

  2. Glaziele disse:

    Olá, Gilberto Medeiros

    Tenho um bulldog inglês fêmea que está com 5 meses, e a criadora orientou castrá-la antes do primeiro cio para que diminuam as chaces dela desenvolver alguma doença relativa aos hormônios liberados nesta fase. No caso estávamos falando sobre evitar um tumor, como já aconteceu comigo de perder uma cachorra com câncer no útero e ela nunca havia cruzado. Mas estou com um pouco de medo de submeter ela a uma cirurgia, levando em conta que ela é muito novinha. E agora lendo sua matéria, estou mais pensativa ainda, pois eu entendi que não se deve confundir as duas doenças mencionadas no texto, mas se eu castrá-la posso estar evitando de ela ter um problema de pele também, tendo em vista que ela nunca ficou doente antes?
    Na sua opinião, devo ou não castrá-la?
    Obrigada, aguardo sua resposta!

    • Oi Graziele!
      A castração, como qquer cirurgia, sempre envolve risco ao cão. Na minha experiência como criador nunca tive problemas de câncer que pudessem estar associados a não-castração, aliás problemas desse tipo são raros na raça. Se optares pela castração, certifique-se que o veterinário e anestesista possuem intimidade com a raça e de que a anestesia será inalatória. Abs e boa sorte!

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